À luz do que consideramos “normal”, o Sistema Solar parece avariado. Senão, vejamos: Vénus gira ao contrário, Urano anda quase deitado e Marte perdeu grande parte da atmosfera e da água. Cada um destes mundos guarda pistas de um passado complicado! Então, o que nos falta ainda “diagnosticar”? Uma família de planetas cheia de diferenças […]
À luz do que consideramos “normal”, o Sistema Solar parece avariado. Senão, vejamos: Vénus gira ao contrário, Urano anda quase deitado e Marte perdeu grande parte da atmosfera e da água. Cada um destes mundos guarda pistas de um passado complicado! Então, o que nos falta ainda “diagnosticar”?
Uma família de planetas cheia de diferençasO Sistema Solar parece organizado quando o vemos numa ilustração. Cada planeta segue a sua órbita à volta do Sol, como se tudo tivesse sido colocado cuidadosamente no lugar.
Mas os pormenores revelam surpresas. Há planetas que giram em sentidos diferentes, mundos com inclinações extremas e outros que perderam condições que tiveram no passado.
Estas diferenças levantam uma pergunta fascinante: como chegou o Sistema Solar à forma que tem hoje?
Vénus: o planeta onde o Sol nasce a oesteVénus gira no sentido contrário ao da maioria dos planetas. À superfície, o Sol nasceria a oeste e pôr-se-ia a este. Além disso, uma volta completa sobre o seu eixo demora cerca de 243 dias terrestres, mais do que os aproximadamente 225 dias que leva a completar uma órbita à volta do Sol.
Uma colisão antiga pode parecer a explicação mais óbvia. Contudo, não sabemos se foi isso que aconteceu.

Em 2001, os investigadores Alexandre Correia e Jacques Laskar mostraram que as marés atmosféricas e os efeitos gravitacionais também poderiam levar Vénus à sua rotação atual. Segundo os seus modelos, o planeta poderia inverter o sentido de rotação sem precisar de ficar literalmente de cabeça para baixo.
É uma ideia surpreendente: uma atmosfera pode ajudar a mudar a forma como um planeta inteiro gira.
Urano: um mundo quase deitadoA Terra tem uma inclinação de cerca de 23 graus. Urano chega a quase 98 graus. Por isso, parece girar deitado enquanto viaja à volta do Sol.
Esta posição cria estações extremas. Como um ano em Urano dura cerca de 84 anos terrestres, partes do planeta podem atravessar períodos de aproximadamente 21 anos de escuridão. Uma colisão com um objeto do tamanho da Terra é uma das explicações possíveis para a sua inclinação.

Mas há outras propostas. Um estudo de 2022 explorou a possibilidade de uma antiga lua se ter afastado progressivamente de Urano, alterando a inclinação do planeta antes de acabar por colidir com ele.
É uma hipótese investigada através de simulações. Ainda não sabemos qual destes caminhos explica melhor o passado de Urano.
Neptuno: uma órbita regular e uma lua inesperadaO áudio descreve a órbita de Neptuno como demasiado elíptica. Os dados mostram outra coisa: ela é quase circular.
A sua excentricidade, o valor que mede quanto uma órbita se afasta de um círculo, é aproximadamente 0,01. A da Terra é cerca de 0,017. Neste aspeto, Neptuno tem uma órbita ainda mais circular do que a nossa.
O verdadeiro enigma está numa das suas luas: Tritão.

Tritão é a única grande lua do Sistema Solar que orbita no sentido contrário ao da rotação do seu planeta. Esta característica sugere que se formou noutro lugar e foi depois capturada pela gravidade de Neptuno.
Ou seja, há boas razões para pensar que Neptuno acolheu um visitante vindo de longe.
A cintura de asteroides: restos de um planeta destruído?Entre Marte e Júpiter existe uma vasta região de corpos rochosos. Vista como um conjunto de destroços, a cintura de asteroides convida a imaginar um planeta que explodiu.
Tom Van Flandern defendeu uma versão desta hipótese. Num artigo publicado em 2007, propôs que vários planetas e luas teriam sido destruídos ao longo da história do Sistema Solar. Também sugeriu que Marte poderia ter sido uma lua de um desses mundos.
Contudo, a investigação sobre a cintura aponta para uma história mais complexa. Os seus objetos apresentam composições diferentes e podem ter vindo de várias regiões. A formação e a migração dos planetas ajudaram a deslocá-los, a remover material e a alterar as suas órbitas.
Hoje, toda a cintura contém menos de um milésimo da massa da Terra. A sua origem continua a ser estudada, mas não está demonstrado que resulte da explosão de um único planeta. Revisão sobre a origem da cintura de asteroides.
Marte: como se transforma um planeta?Marte é hoje um mundo frio, com uma atmosfera muito fina. Os dados da missão MAVEN indicam que o vento solar e a radiação contribuíram para a perda de grande parte da sua atmosfera ao longo do tempo.
Esta transformação ajuda a explicar como um planeta que teve condições para água líquida à superfície se tornou tão diferente.

O áudio também menciona isótopos como indício de uma catástrofe nuclear. Mas encontrar diferentes versões de um elemento químico não prova uma explosão artificial.
As medições do Curiosity mostram que processos naturais, incluindo a ação dos raios cósmicos sobre materiais da superfície, podem explicar determinadas abundâncias de xénon e crípton na atmosfera marciana.
Maldek: uma história que já foi contadaE se alguns dos mistérios do Sistema Solar fossem vestígios de mundos que já não existem? A hipótese dos planetas destruídos propõe que grandes catástrofes teriam espalhado destroços e alterado o destino de outros corpos celestes.
Tom Van Flandern foi um dos defensores desta ideia. Num artigo publicado em 2007, sugeriu que vários planetas e luas poderiam ter explodido ao longo da história do Sistema Solar. Uma das suas propostas mais surpreendentes era que Marte teria sido uma lua de um planeta entretanto destruído.

Maldek é o nome de um mundo perdido que aparece em narrativas esotéricas, algumas das quais atribuem a sua destruição aos próprios habitantes. Esses relatos documentam uma crença, não uma descoberta astronómica.
A possibilidade desperta curiosidade, mas a existência de Maldek não está demonstrada. Quanto à cintura de asteroides, os estudos descrevem processos de formação, migração e interação gravitacional capazes de explicar a sua evolução sem recorrer à explosão de um planeta.
Um passado que ainda estamos a reconstruirO Sistema Solar conserva sinais de mudanças profundas. Existem hipóteses de grandes colisões, evidências de perda de atmosferas e luas que parecem ter sido capturadas.
O desafio é descobrir quais destes acontecimentos estão ligados e quais têm histórias próprias.
Talvez nunca consigamos reconstruir todos os detalhes. Mas cada órbita, cada cratera e cada amostra analisada acrescenta uma pista. Os planetas que hoje parecem tranquilos guardam perguntas sobre um passado que ainda estamos a aprender a ler.
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