Pensadora feminista reconstrói a genealogia das crises contemporâneas que desencadearam genocídios, guerras e reações do “macho obsoleto”. E os sinais de anseio por alternativas – que não virá da “Europa civilizada”, nem do “progressismo-neoliberal”
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Imagem: Reprodução/The New School
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Nestes tempos de trevas em que um ator comparece ao horário nobre da televisão para, diante de milhões, falsear a realidade da violência de gênero enquanto promove seu evento pago de exaltação à masculinidade sitiada — tempos em que o monopólio midiático naturaliza a mentira e a transfere para o centro do debate público —, há certas vozes cujo chamado à lucidez se torna um imperativo ético.
Nancy Fraser, a filósofa e teórica crítica que aos 79 anos segue desmontando as estruturas de poder com a precisão de uma artesã e a força de quem não tem nada a perder, é uma dessas vozes.
Fraser ocupa, desde 1995, a cátedra Henry A. and Louise Loeb de Filosofia e Política na The New School for Social Research, em Nova York, uma das instituições mais prestigiosas do mundo no campo da teoria crítica — tradição à qual a filósofa pertence por filiação direta, como herdeira da Escola de Frankfurt e interlocutora contínua de Jürgen Habermas e Axel Honneth.
Antes disso, ensinou por muitos anos no departamento de filosofia da Northwestern University, uma das principais universidades privadas de pesquisa dos Estados Unidos, e foi professora visitante em instituições como a Johann Wolfgang Goethe-Universität de Frankfurt (Alemanha), a Stanford University, a State University of New York (SUNY) e a University of Cambridge, onde em 2011 ocupou a cátedra Humanitas Visiting Professor in Women’s Rights.
Sua trajetória acadêmica iniciou-se no Bryn Mawr College, uma das Sete Irmãs, a elite das faculdades de artes liberais femininas dos Estados Unidos, onde se bacharelou em filosofia em 1969; o doutorado veio em 1980 pelo CUNY Graduate Center, a pós-graduação da City University of New York, onde estudou com os filósofos que a introduziram à tradição crítica europeia.
Fraser também detém títulos de doutora honoris causa por quatro universidades em três países — Argentina, Chile e Países Baixos —, reconhecimento internacional de uma obra que já foi traduzida para mais de vinte idiomas, incluindo citações em três ocasiões pelos ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro em votos que sustentaram o casamento igualitário, as ações afirmativas e os direitos territoriais quilombolas.
Sua produção bibliográfica é um mapa das grandes controvérsias da teoria social contemporânea. Entre os títulos fundamentais, destacam-se Unruly Practices: Power, Discourse, and Gender in Contemporary Social Theory (University of Minnesota Press, 1989), sua primeira grande intervenção, na qual articulou Foucault com Habermas para pensar o gênero como categoria analítica; Justice Interruptus: Critical Reflections on the “Postsocialist” Condition (Routledge, 1997), publicado no Brasil como Justiça interrompida: reflexões críticas sobre a condição “pós-socialista” (Boitempo, 2022), onde formulou sua teoria bidimensional da justiça como redistribuição e reconhecimento; Redistribution or Recognition?
A Political-Philosophical Exchange (Verso, 2003), coescrito com Axel Honneth, que se tornou um clássico do debate contemporâneo sobre justiça social; Scales of Justice: Reimagining Political Space in a Globalizing World (Columbia University Press, 2009), no qual expandiu sua teoria para o plano transnacional; Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis (Verso, 2013), publicado no Brasil como Destinos do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal (Editora UnB, 2024), um acerto de contas com as trajetórias do movimento feminista; Capitalism: A Conversation in Critical Theory (Polity, 2018), com Rahel Jaeggi; e Feminismo para os 99%: um manifesto (Boitempo, 2019), redigido com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, que se tornou um fenômeno editorial global lançado simultaneamente em oito países e que no Brasil já acumula múltiplas reimpressões, com tiragens que superaram as expectativas iniciais da editora.
Sua obra mais recente, Cannibal Capitalism: How Our System is Devouring Democracy, Care, and the Planet – and What We Can Do About It (Verso, 2022), saiu no Brasil como Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso (Boitempo, 2024), recebendo também edições pela Suhrkamp na Alemanha e pela Autonomia Literária em coedição brasileira.
Um volume de intervenção política mais compacto, O velho está morrendo e o novo não pode nascer (Autonomia Literária, 2020), condensou seu diagnóstico da crise de hegemonia neoliberal e circulou amplamente no Brasil em formato de bolso.
Ao reconstruir a genealogia da crise contemporânea, a filósofa distribui o peso da guinada neoliberal entre a herança conservadora e as capitulações da “Terceira Via” de Bill Clinton, Tony Blair e Gerhard Schröder, desvelando como o bloco progressista-neoliberal chocou o ovo da serpente do populismo autoritário.
Sob um vácuo hegemônico global — onde o assalto a Gaza decreta a falência moral do universalismo ocidental, a inteligência artificial é sequestrada por monopólios oligárquicos e a Maré Rosa latino-americana esbarra nos limites materiais do imperialismo —, o pensamento crítico mapeia os lampejos de insurgência subalterna que emergem em Nova York e Minneapolis.
Trata-se de um itinerário analítico que fornece a gramática indispensável para desarmar a reação patriarcal nas Américas, culminando no desmantelamento das distorções factuais promovidas pelo tradicionalismo de Juliano Cazarré na mídia de massa brasileira.
A entrevista foi conduzida por Thiago Gama, historiador comparativista, mestre e doutorando pelo programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Eis a entrevista.
Seu conceito de “capitalismo canibal” revela como o sistema devora suas próprias condições de possibilidade — o trabalho de cuidado, o poder público, a natureza e o trabalho racializado. Como as “histórias de fundo” da expropriação e do trabalho racializado estão se desdobrando de forma diferente hoje no Sul Global, onde essas dinâmicas surgem frequentemente sem os álibis institucionais do Norte?
A diferença entre esses grupos se estabelecia por sua cor e por seu status. Do ponto de vista do status, um grupo era juridicamente livre, o outro não — e isso coincidiu com a linha de cor global. Em geral, os povos expropriados foram povos negros. Em geral, os trabalhadores livres eram os europeus, os brancos, como eram chamados. Isso foi no início, mas acho que, com o tempo, essa divisão que racializava a diferença entre os expropriados e os explorados foi se tornando mais complexa. Diria que hoje as coisas são mais complicadas.
Hoje, quase todos os povos do Sul Global habitam estados considerados independentes e, portanto, possuem alguns direitos — talvez não muitos, mas direitos no papel: são cidadãos. E muitos deles realizam trabalho assalariado, embora não todos. Ainda existem aqueles coercidos a uma espécie de economia clandestina. Mas há trabalho livre e explorado no Sul Global hoje, e, ao mesmo tempo, no Norte Global, por causa da neoliberalização, os salários foram comprimidos, a segurança no emprego foi destruída, os sindicatos foram enfraquecidos, a manufatura foi expulsa.
Então, muitos trabalhadores no Sul Global são expropriados por meio de dívidas, ao mesmo tempo em que realizam formas de trabalho assalariado precário, especialmente no setor de serviços. Vemos uma imagem mais complexa. Em ambas as regiões — Norte e Sul Global —, as pessoas são simultaneamente expropriadas e exploradas. É uma divisão menos nítida do que tivemos nas fases anteriores do capitalismo, mas ainda há uma diferença entre o trabalho expropriado e o explorado nas duas extremidades do espectro, e há pessoas no meio — que poderíamos chamar de híbridos, misturando os dois estados. Essa está se tornando uma posição majoritária, creio eu.
Ao mesmo tempo, a cor ainda é uma linha de clivagem na sociedade, mas de forma um pouco diferente da época anterior, quando coincidiu muito prontamente com a divisão entre livre e expropriado. Agora, a cor persiste como o que alguns chamam de forma de subordinação pós-colonial, mesmo que o estatuto formal de escravizados ou dependentes tenha sido abolido. É uma resposta longa, mas a questão é complexa, e espero que ajude.
A era Reagan-Thatcher é frequentemente associada ao surgimento dos problemas que a senhora descreve — neoliberalismo, racialização, desigualdade. Qual é a sua avaliação desse período?
É verdade que essas duas figuras estão associadas, no imaginário popular, à neoliberalização, e isso faz algum sentido: ambos argumentaram fortemente que o problema de seus países decorria do excesso de intervenção estatal, de burocracia demais. Era preciso deixar os mercados agirem livremente. Essa foi a ideologia.
Mas acho que a história real é mais complexa. Nos EUA e no Reino Unido, os grandes movimentos de instalação e consolidação do neoliberalismo foram realizados pelo Partido Democrata, com Bill Clinton, e pelo Novo Trabalhismo, com Tony Blair. São eles, no caso de Clinton, que desregulamentaram Wall Street, tornaram o mercado de derivativos algo de proporções imensas e expandiram a OMC para incluir a China — o que alterou dramaticamente a geografia da produção industrial. E Blair copiou Clinton.
A chamada “Terceira via”.
Exatamente, terceira via. Porque acharam que poderiam vencer eleições mais facilmente se abandonassem os sindicatos e a classe trabalhadora, que eram sua base de apoio, e tentassem, em vez disso, atrair eleitores independentes e suburbanos. Devem, portanto, receber grande parte da responsabilidade pela neoliberalização. Não foram apenas Thatcher e Reagan. Posso contar a mesma história sobre a Alemanha. Foi Gerhard Schröder, um social-democrata, quem introduziu as reformas Hartz que transformaram todo o sistema de mercado de trabalho alemão. Em alguns países, foi a direita que o fez — mas não no Reino Unido, nos EUA ou na Alemanha.
Seu diagnóstico de 2017 sobre a hegemonia “progressista-neoliberal” e seu papel no nascimento do Trumpismo foi tragicamente confirmado. No contexto do segundo mandato de Trump, quais são as possibilidades concretas de construir um bloco contra hegemônico que não repita os erros de casar uma política progressista de reconhecimento com uma economia política neoliberal?
De certa forma, isso retoma a pergunta anterior. Quando eu descrevia o papel de Blair e Clinton, chamava-os de progressistas-neoliberais: apelavam a eleitores que apoiavam, pelo menos na superfície, o feminismo, os direitos gays, a ecologia, o antirracismo — mas combinavam essa política de reconhecimento com uma política distributiva regressiva, que significava redistribuição de baixo para cima, em favor dos muito ricos. E isso pavimentou o terreno para os Trump e os Bolsonaro. Porque esses progressistas neoliberais supervisionaram a deterioração das condições de vida das classes trabalhadoras — nos EUA, comunidades foram destruídas, as pessoas ficaram dependentes de opioides, sem empregos, sem comunidade, sem vida social.
Isso foi obra dos progressistas neoliberais. E criou uma abertura para que os Trump e os Bolsonaro do mundo saltassem e dissessem: “Nós somos o partido da classe trabalhadora, vamos fazer a América grande novamente, vamos resolver tudo para vocês. E sabe quem é o culpado? Os imigrantes. Nos EUA: os mexicanos, os muçulmanos, os trans, os judeus.” Ambos os campos tinham a mesma economia política oligárquica, mas políticas de reconhecimento distintas.
Isso nos traz ao presente. Eu diria que, neste momento, nos EUA, a administração Trump perdeu muito apoio e está em dificuldades eleitorais — o que explica as manobras para redistribuir distritos eleitorais e garantir maior representação. Mas do ponto de vista da opinião pública, o governo está em apuros: superou-se na brutalidade contra os imigrantes, nos assassinatos e deportações; falhou em cumprir a promessa de trazer de volta os empregos industriais — isso não aconteceu. E agora, a última falha é essa guerra insana, esse ataque insano junto com os israelenses contra o Irã.
É um momento em que o movimento trumpista não detém nenhuma hegemonia segura. O país está polarizado. Não há força hegemônica. E isso cria oportunidades para quem queira apresentar alternativas — à esquerda, podemos dizer — para entrar com uma mensagem crítica, boa organização, boa narrativa, e tentar apelar: “Você votou em Trump e agora está decepcionado. Venha conosco, vamos fazer diferente.”
Não estou dizendo que estou exatamente otimista. Não faço previsões. Mas é um momento de vácuo hegemônico, e isso cria possibilidades. Vimos, por exemplo, em Nova York a eleição de Zohran Mamdani, um prefeito socialista democrático. É uma cidade com uma população imigrante enorme — e ele próprio tem ascendência sul-asiática e representa simbolicamente os imigrantes. É interessante também porque é uma cidade com mais de um milhão de eleitores judeus — a maior população judaica fora de Israel — e ele conseguiu reunir uma coalizão de imigrantes e jovens, muitos, embora não todos, judeus que rejeitaram as políticas do governo israelense em Gaza e na Cisjordânia. É um sinal esperançoso.
Outro sinal esperançoso foi a insurreição dos cidadãos de Minneapolis. Levantaram-se contra o ICE com enorme coragem, colocando seus corpos na linha — e dois deles foram brutalmente assassinados por agentes do ICE. Isso provocou um grande refluxo contra Trump e contra o ICE no país. Se isso vai somar a algo maior, não posso dizer. Mas há lugares, momentos e desenvolvimentos que mostram que existem oportunidades, mesmo que a situação geral seja muito sombria.
O Brasil contou com treze anos de governos do PT — Lula e Dilma Rousseff. Bolsonaro foi, então, um governo abertamente fascista. Na sua opinião, por que a esquerda política perdeu o poder?
Bem, gostaria de poder responder à sua pergunta, mas não estou no Brasil e não tenho familiaridade suficiente com a política de campo para fazê-lo com segurança. Acho que seus próprios cientistas e analistas políticos terão muito mais a me ensinar do que eu a eles. Imagino que essa resposta o decepciona — mas é a verdade.
A única coisa que posso dizer é que os governos do Partido dos Trabalhadores enfrentavam uma situação muito difícil. Junto com a Maré Rosa na América Latina, estavam tentando traçar um caminho em um mundo ainda muito dominado pelos Estados Unidos, pela China e pelas outras potências. Estavam tentando ir contra a corrente. Havia questões de finanças globais, reestruturação de dívidas — tudo isso trabalhando contra esses governos.
E, ao mesmo tempo, nas políticas internas, acho que especialmente Lula se empenhou em redistribuir a riqueza mais do que em reestruturar toda a economia. Essa redistribuição era muito dependente dos preços das commodities. Quando esses preços caíram no mercado mundial — o que aconteceu —, a capacidade de redistribuir foi reduzida. É mais um exemplo de como nenhum país é uma ilha. Você está constrangido pelo mercado mundial. E acho que as boas intenções esbarraram nas duras realidades do imperialismo global.
Talvez também tenham ocorrido erros — provavelmente alguns membros do PT se decepcionaram e deixaram o partido. Mas não posso comentar sobre isso. O que eu diria em geral é que não se pode simplesmente ignorar o poder imperial global — a economia do dólar, os mercados financeiros, os mercados de commodities. É interessante que estamos vendo hoje, no caso do Irã, como eles têm uma alavancagem real por serem capazes de controlar o Estreito de Ormuz. É um poder considerável. A Maré Rosa na América Latina não dispunha dessa alavancagem para forçar os bancos e as potências globais a se comportarem de forma diferente. Há um poder muito forte no mundo, e mesmo um governo bem-intencionado pode não ser capaz de sobreviver a ele.
Estamos diante do fim da era do industrialismo, especialmente em face da inteligência artificial?
É um tema complexo. É muito claro que o que costumávamos chamar de “sociedade pós-industrial” sempre foi uma imagem distorcida — porque a indústria não desapareceu. Ela simplesmente migrou para o que chamamos de BRICS, o que inclui o Brasil, é claro. Há muita produção industrial, e não vejo isso mudar.
Quanto à inteligência artificial — que empregos ela vai substituir? É uma pergunta importante. Já temos o uso de robôs em alguns setores industriais. Mas a IA é uma ameaça maior, eu diria, para os trabalhadores de colarinho branco do que para os trabalhadores da manufatura. Ainda não sabemos ao certo. Muito do que se fala sobre a IA são hipóteses — não é necessariamente um cenário verdadeiro e validado sobre o que vai acontecer. Muitas dessas narrativas existem para inflar o preço das ações.
Diria que a tecnologia está sob o controle dessas grandes empresas lucrativas geridas por oligarcas. Elas a controlam e, obviamente, a utilizam para promover sua própria acumulação de capital. Em um mundo diferente, a mesma tecnologia poderia ser usada de outra forma — de modo a tornar nossas vidas mais fáceis, criando a possibilidade de todos trabalharmos menos horas e vivermos melhor. Mas sob o controle de Elon Musk e afins, está sendo usada para fins que representam uma ameaça à vida de muitas pessoas e à sua capacidade de viver bem.
Seu ensaio recente interpreta o assalto a Gaza como um “evento-mundo” que estraçalha a ordem moral pós-Holocausto do Ocidente. Neste momento de ruptura profunda, como intelectuais e movimentos sociais no Sul Global podem articular uma nova gramática de justiça global?
Acho que isso é, de certa forma, análogo ao que eu dizia sobre os Estados Unidos. Nos EUA, disse que o movimento Trump não conseguiu estabelecer uma hegemonia segura, que há muita desilusão e que muitas pessoas estão abertas a novas ideias. Isso vale no plano global. O que queimou a ordem moral ocidental — o senso de ilegitimidade clara de potências que antes se apresentavam como legítimas e portadoras de interesses universais — também é uma oportunidade. É perigoso. Não quero pintar um quadro cor-de-rosa. Há muitos perigos, incluindo a possibilidade de uma guerra nuclear — porque Netanyahu não está sob o controle de Trump: é um ator imprevisível que poderia decidir usar armas nucleares contra o Irã.
Mas a indignação profunda que as pessoas ao redor do mundo sentem quando veem o que Israel está fazendo em Gaza, dia após dia, cria um senso mundial de horror. E acho que Israel é um ponto de inflexão. Somando-se a isso o apoio de Trump a Netanyahu na invasão mais recente e na guerra contra o Irã, estamos vendo uma coisa após a outra que todos sabem ser errada e não deveria acontecer. Essa é a primeira condição: o senso de que precisamos de algo diferente.
O problema é que não temos uma imagem clara de uma ordem alternativa. Os europeus, que se apresentam como uma alternativa ocidental civilizada, estão essencialmente fora de cena: não têm capacidade de construir uma política externa comum, estão internamente divididos, especialmente nas questões da Rússia e da Ucrânia. A China está em algum tipo de aliança de fato com a Rússia, o Irã e talvez a Turquia. Não acho que seja necessariamente uma aliança que represente o bem para o planeta, mas pode ser mais estável do que o que temos agora. A América Latina, durante o período da Maré Rosa, representou uma possível abertura para algo diferente. Mas as vitórias da direita em diversos países mudaram esse quadro. Olhando para os poderes existentes, não vejo nenhum país, aliança ou bloco que pudesse representar uma alternativa genuinamente emancipadora.
Isso significa que, por ora, a sociedade civil é o espaço em que podemos tentar desenvolver ideias. E eu diria que, pelo menos nos EUA, a política externa tem sido o ponto cego da esquerda americana. Bernie Sanders, que admiro muito, não tinha muito a dizer sobre política externa. A esquerda americana sabe contra o que é e quer acolher imigrantes — mas não tem nenhum projeto além de uma condenação moral do que está acontecendo. Acho que este é um período em que a esquerda deveria se concentrar em tentar descobrir — por meio de discussões e debates — qual deve ser a sua política externa, como deve ser uma nova ordem global. Não como utopia pintada ou pensamento desejoso, mas de forma política, olhando para onde estão os movimentos, as uniões internacionais, as outras forças que poderiam encarnar essa ideia. Porque temos que pensar estratégica e eticamente.
Para encerrar, trago um caso perturbador do Brasil. O Grupo Globo — nosso maior conglomerado de mídia, análogo ao império Murdoch na Austrália — concedeu, recentemente, espaço de horário nobre na GloboNews Debate ao ator conservador Juliano Cazarré para promover seu movimento tradicionalista “O Farol e a Forja”. Trata-se de uma expressão clara da reação “red pill”, que instrumentaliza fake news flagrantes ao afirmar que mulheres matam mais homens do que o contrário. Os dados oficiais confirmam uma epidemia de mais de 1.400 feminicídios legalmente tipificados por ano no Brasil, além de centenas de mortes violentas de indivíduos LGBTQIA+. Em seu trabalho atual, que reinterpreta o feminismo como um movimento trabalhista que articula trabalho explorado, expropriado e doméstico, como esse reencadramento pode ajudar a forjar uma força contra-hegemônica unificada para desmantelar essa ofensiva patriarcal, que agora ocupa os espaços centrais da mídia convencional nas Américas?
Obviamente, se a paisagem midiática é tão dominada por uma única empresa e uma única fonte, isso é muito sério. E acho que você tem razão: há obrigações que se tornam especialmente importantes nesse tipo de situação de controle monopolístico.
Deixe-me perguntar a você: quais são as opções no âmbito judicial? Quem controla o licenciamento? O governo tem atualmente a capacidade de invocar uma correção legal? Porque não deveriam estar concedendo licenças a uma empresa capaz de transmitir fake news em uma escala tão enorme. Isso é uma possibilidade? E há outros tipos de organização — pessoas protestando na frente de suas sedes, nas ruas?
Deveriam ter corrigido as fake news que ele estava propagando. Foi muito sério porque foi um debate — havia outras pessoas presentes, falando contra ele. Um psiquiatra e um professor deveriam ter enfatizado com mais força que ele estava propagando informações falsas e que o que dizia não correspondia à realidade. Mas não sei se conseguiram explicar da forma como deveriam.
Há, então, mais razões ainda para que outras mídias — como a sua — façam o melhor para expor as fake news. Entendo que vocês não têm o mesmo alcance, a mesma capacidade de falar a um público amplo, mas façam o que podem. No entanto, acho que deveria haver protestos. Deve haver movimentos feministas — mas não só — outros grupos protestando contra isso. Me diga o nome dele — Cazarré?
Juliano Cazarré.
Juliano Cazarré. Tenho certeza de que vocês têm protestos. Acho que há estratégias legais que podem ser desenvolvidas. Não sei ao certo sobre o seu sistema judicial, se tem capacidade de…
Acho que sim, de alguma forma — não tenho profundo conhecimento da lei, mas creio que deveriam poder agir…
E espero que os movimentos feministas estejam nas ruas falando sobre isso. Desculpe não saber o suficiente para dizer mais — mas é bastante horrível.
Dispositivo Crítico de Contexto:
Fonte oficial de informações e inscrições: https://www.instagram.com/faroleforja/
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América Latina, classe trabalhadora, Donald Trump, economia política, esquerda política, EUA, feminicídio, filosofia, Lula, Maré Rosa, movimento trumpista, movimentos feministas, Nancy Fraser, neoliberalização, Norte global, pt, Sul global, teoria feminista, violência de gênero
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